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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

POEMA EM LINHA RETA



Poema em linha reta


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

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Uma visão breve sobre a vida e a obra do maior poeta da língua portuguesa:

- 1888: Nasce Fernando Antônio Nogueira Pessoa, em Lisboa.

- 1893: Perde o pai.

- 1895: A mãe casa-se com o comandante João Miguel Rosa. Partem para Durban, África do Sul.

- 1904: Recebe o Prêmio Queen Memorial Victoria, pelo ensaio apresentado no exame de admissão à Universidade do Cabo da Boa Esperança.

- 1905: Regressa sozinho a Lisboa.

- 1912: Estréia na Revista Águia.

- 1915: Funda, com alguns amigos, a revista Orpheu.

- 1918/1921: Publicação dos English Poems.

- 1925: Morre a mãe do poeta.

- 1934: Publica Mensagem.

- 1935: Morre de complicações hepáticas em Lisboa.


Os versos acima, escritos com o heterônimo de Álvaro de Campos, foram extraídos do livro "Fernando Pessoa - Obra Poética", Cia. José Aguilar Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 418.


domingo, 2 de novembro de 2014

CRISE EXISTENCIAL



Por: Jaqueline Ramiro

Já conhecemos o discurso de que nós mulheres estamos cada vez mais ganhado o mercado de trabalho, conquistando espaços anteriormente a revolução feminista, só ocupados por homens.
Um grande avanço nesse sentido se faz perceber no aumento da presença de mulheres na esfera pública.
A exemplo do Brasil, atualmente temos uma mulher ocupando o cargo mais alto do Estado, a presidência.

Nos bons e velhos tempos, que hoje sabemos não eram tão bons assim, a ideia de ter uma mulher dirigindo um país da magnitude do Brasil era inconcebível. As problemáticas apresentadas como contra ponto de impedimento estavam focadas na suposta fragilidade da mulher, a incapacidade, o "sexo frágil". Isso foi por muito tempo o embusteiro de um machismo velado em uma sociedade de caráter patriarcal onde a masculinidade do homem era determinada pela sua presença e posicionamento na vida pública.

A definição de ser homem estava mais direcionada no poder, no progresso, no seu posicionamento perante a sociedade, do que na diferença dos Órgãos sexuais e tão pouco em sua virilidade como fazemos nos dias de hoje.
Segundo o pai da psicanalise, Sigmund Freud (1856-1939), ninguém nasce homem ou mulher. Isso vai sendo determinado a parti do tempo e observância do convívio social.

Homens e mulheres compartilham os mesmos papeis.

Sendo assim deixo o seguinte questionamento: com os papéis feminino e masculino correndo de encontro um ao outro e se misturando, se confundindo, como iremos encara a crise de identidade, os conflitos existências, a dubiedade sexual, da geração atual e das que virão?

Fonte: Mulheres em transformação homens em crise. Maria Rita Kehl