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quarta-feira, 8 de abril de 2015

CANTO DE FONTE



Os olhos de Emma são lindos, de uma cor verde-cinza e com forma e tamanho 
muito harmônicos com o pedaço do rosto cuja pele está de fora

A moça do Black Bloc que aparece num vídeo da Mídia Ninja e na capa de “Veja”, que diz chamar-se Emma, é deslumbrantemente bonita com a máscara que só deixa à mostra os olhos. Isso não quer dizer que ela tenha apenas os olhos bonitos (o que muitas vezes é confundido com ter os olhos claros). Os olhos de Emma são lindos, de uma cor verde-cinza e com forma e tamanho muito harmônicos com o pedaço do rosto cuja pele está de fora. Muito harmônico também com as sobrancelhas, cujo arco está corrigido por depilação e talvez reforçado por leve pintura. Onde parece haver pintura (e, se for o caso, de cor e linhas muitíssimo bem escolhidas) é nas pálpebras. Falando para a câmera da Ninja, a borda das pálpebras junto às pestanas delineadas de negro, as jovens dobras do entorno de seus olhos parecem a um tempo escurecidas e cintilantes, sempre com insinuações douradas. Mas o que faz a gente crer tratar-se de uma bela mulher é a relação de tudo isso com a forma do rosto que está sob a máscara negra.

A gente tem vontade de ir ao acampamento em frente à casa de Cabral para falar com ela, mas respeita a exigência do grupo anarquista a que ela aderiu de não fazer de nenhum militante uma individualidade, sua vida pessoal devendo desaparecer sob a máscara e a ideologia. Por mais bonita que ela seja, os Black Blocs não estão aí para lançar celebridades midiáticas e figuras atraentes para olhares curiosos. A porta da casa de Cabral não é o portão do BBB. Emma é linda. O anarquismo é lindo. Mas eu sou um velho baiano que sonhou, aos 23, fuçar uma trans-esquerda ou uma ultra-esquerda e, como todo esse afã de trans e ultra estava focado em libertar a criação de canções no Brasil, terminei, na parte estritamente social e política, encontrando os valores do liberalismo como algo que merecia uma atenção que não vinha recebendo no ambiente em que eu me movia. Já contei em outro lugar como sonhava em ser uma esquerda à esquerda da esquerda e, no fim do processo, quase me tornei um liberal inglês. Tenho muita inveja de Ferreira Gullar, que foi de esquerda, sem fantasias ou delírios de ultra ou trans, e amadureceu para defender sem pejo muitos dos princípios liberais. E olha que ele já tinha experimentado tudo o que pode haver de trans e ultra na atividade poética e na crítica de arte.

Olho demoradamente os olhos, as sobrancelhas, algo da testa, o começo do nariz e um canto de fonte de Emma e me pergunto o que pensar. Ouço-lhe as palavras. Leio no blog de André Forastieri uma pergunta sobre as relações entre o Fora do Eixo e a candidatura de Marina Silva, inclusive sugerindo que o coletivo teria em mente indicar o ministro da Cultura, caso Marina se eleja. Um dos caras que quebraram o palácio do Itamaraty era cabo eleitoral de Marina. Esta o reprovou e o afastou. Mas, entre a beleza de Emma, a opção pela (deveras interessante) economia solidária, como alternativa à ideia de que só o esquema patrão-salário-empregado é livre, e as cenas de depredação protagonizadas pelos Black Blocs, meu coração e minha cabeça balançam: o antigo itinerário labiríntico que passa pela ultraesquerda e se encontra com o liberalismo se refaz em segundos. Mas, como digo na esquisita letra de “Um comunista”, “o samba” não crê em violência e guerrilha. Se Marina conseguir fazer sua campanha para a presidência, acho que não resistirei e votarei outra vez nela. Essa crítica à suposta naturalidade do trabalho assalariado como única forma possível de trabalho livre eu saquei do Mangabeira. Que não harmoniza muito com Marina. Mas harmoniza com a ambição experimental do Fora do Eixo. Que é “acusado” de estar perto demais de Marina.


É um momento muito embolado no cenário brasileiro. O 7 de Setembro vem com uma ameaça de risco de criação de instabilidade séria. Imagino como será em Brasília. Não que a decisão de não cassar o mandato de Donadon ajude. Mesmo assim, devemos manter a ideia de sair às ruas pela paz. Gosto do rosto de Emma, do livro de David Graeber (o antropólogo anarquista que Zé Miguel já citou como bom explicador das moedas alternativas do FdE), de Marina (e sua aproximação de André Lara Resende pode desagradar a alguém como Mangabeira, mas a mim não me desagrada: gosto de Lara Resende pelo que já fez na história do real e pelo artigo sobre crescimento em economia), e acho a proposta de Olavo de Carvalho de uma política (e não só uma economia) para os liberais muito presa à ideia de que o comunismo é como o diabo incansavelmente tramando contra o bem. Há boas intenções nos liberais e há boas intenções nos socialistas e comunistas. Embora ninguém duvide de que boas intenções podem levar ao inferno.

CAETANO VELOSO

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

FILME - DOMÍNIO PÚBLICO




Para refletirmos sobre, um outro ponto de vista, à COPA DO MUNDO e  toda essa agitação política que tem vivido o Brasil atualmente. Principalmente na cidade do Rio de Janeiro que virou um grande canteiro de obras e tem recebido massivas quantias de dinheiro dos mais variados setores,  nacionais ou internacionais. 


A cidade tem passado por transformações que  não se limitam apenas ao espaço físico, mas a vida de seus moradores. Desapropriações, especulação imobiliária, aumento do custo de vida, forte intervenção das forças militares em áreas carentes localizadas dentro do chamado - cinturão de segurança pública.

Para os pobres direitos que são garantidos pela constituição e pelos direitos humanos estão sendo violados constantemente fora do alcance das lentes das grandes mídias, ou alguém pode me dizer onde está Amarildo?

Os protestos de junho de 2013 encheram as ruas com milhares de pessoas. Foi um ótimo exemplo de que o Brasileiro, é sim, capaz de se unir para mudar as coisas. "Não queremos copa, queremos saúde, educação, melhoria no transporte público, etc."  Assombrado o governo reagiu coagindo os protestos com violência. E essa mesma violência serviu de combustível para que mais pessoas viessem a ocupar as ruas e ampliou a ação de grupos radicais. O importante era mudar o Brasil: com bandeira nas mãos ou com pedras. Mas infelizmente muitos dos que participaram das manifestações estavam em clima de micareta e talvez não tenham entendido a relevância daquele momento para a história do Brasil.

Outro problema das manifestações, que quase não é falado, foram os políticos oportunistas: gente ligada ao governo que recebeu a missão de está nas manifestações e tentar aparecer a todo custo - Pular enfrente as câmeras, fazer uma dancinha, qualquer coisa para dizer que estava ali e representando o apoio que determinado partido dava a democracia. Mas quem acompanhou os primeiros protestos, a respeito de uma conjuntura nacional, pode ouvir em alto e bom som os gritos da multidão:

"Chega de corrupção"
"Fora Dilma"
"Fora PT"

Mas os oportunistas não se importaram com isso e muitos até carregavam provocativamente bandeiras de seus partidos, desconfigurando completamente a razão dos protestos, que de ação social passou a ser algo integralmente político e demagogo.

Começamos bem, criamos espareças e terminamos no mais do mesmo.

 Tem Copa do Mundo os transtornos e pressões ás comunidades carentes que hoje vivem uma falsa pacificação é sufocante e vai ficar pior, pois ainda tem olimpíadas que é muito mais exigente.

Gostei muito da abordagem feita por esse documentário - Domínio Público - mas a credibilidade dele fica em xeque quando encontramos depoimentos como o do Dep. federal Romário. Sei que é muito caro fazer cinema no Brasil é produção desse vídeo foi independente, mas questiono quais são os patrocinadores e o tipo de acordos que foram realizados para a construção do filme.

Para um lado, ou para o outro tudo é tendencioso.