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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

COMUNHÃO



COMUNHÃO

"Todos os meus mortos estavam de pé, em círculo,
eu no centro.
Nenhum tinha rosto. Eram reconhecíveis
pela expressão corporal e pelo que diziam
no silêncio de suas roupas além da moda e de tecidos; roupas não
anunciadas nem vendidas.
Nenhum tinha rosto. O que diziam
escusava resposta,
ficava parado, suspenso, objeto denso, tranqüilo.
Notei um lugar vazio na roda.
Lentamente fui ocupá-lo.
Surgiram todos os rostos, iluminados"

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

INTIMIDADE




No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

JOSÉ SARAMAGO