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domingo, 19 de abril de 2015

FALANDO DE AMOR



A Afinidade é um dos poucos sentimentos que resistem ao tempo e ao depois. A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil, delicado e penetrante dos sentimentos. É o mais independente também.

Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, as distâncias, as impossibilidades. Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação, o diálogo, a conversa, o afeto no exato ponto em que foi. Ter afinidade é muito raro. Mas, quando existe não precisa de códigos verbais para se manifestar. Existia antes do conhecimento, irradia durante e permanece depois que as pessoas deixaram de estar juntas.

Afinidade é ficar longe pensando parecido a respeito dos mesmos fatos que impressionam, comovem ou mobilizam. É ficar conversando sem trocar palavras. É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento. Afinidade é sentir com, Não é sentir contra, Nem sentir para, Nem sentir por, Nem sentir pelo. Quanta gente ama loucamente, mas sente contra o ser amado.

Quantos amam e sentem para o ser amado, não para eles próprios. Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo. É olhar e perceber. É mais calar do que falar,ou, quando é falar, jamais explicar: apenas afirmar.. Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças.

É conversar no silêncio, tanto nas possibilidades exercidas quanto das impossibilidades. Afinidade é retomar a relação no ponto em que parou sem lamentar o tempo de separação. Porque tempo e separação nunca existiram.

Foram apenas oportunidades dadas (tiradas) pela vida. para que a maturação comum pudesse se dar. E para que cada pessoa pudesse e possa ser,cada vez mais a expressão do outro sob a forma ampliada do eu individual aprimorado.

Artur da Távola

AMOR MADURO



O amor maduro não é menor em intensidade.
Ele é apenas quase silencioso. Não é menor em extensão.
É mais definido, colorido e poetizado.
Não carece de demonstrações: presenteia com a verdade do sentimento.
Não precisa de presenças exigidas: amplia-se com as ausências significantes.

O amor maduro somente aceita viver os problemas da felicidade.
Problemas da felicidade são formas trabalhosas de construir o bem e o prazer.
Problemas da infelicidade não interessam ao amor maduro.

O amor maduro cresce na verdade e se esconde a cada auto-ilusão.
Basta-se com o todo do pouco.
Não precisa nem quer nada do muito.
Está relacionado com a vida e a sua incompletude, por isso é pleno em cada ninharia por ele transformada em paraíso.
É feito de compreensão, música e mistério.
É a forma sublime de ser adulto e a forma adulta de ser sublime e criança.
O amor maduro não disputa, não cobra, pouco pergunta, menos quer saber. Teme, sim. Porém, não faz do temor, argumento.
Basta-se com a própria existência.
Alimenta-se do instante presente valorizado e importante porque redentor de todos os equívocos do passado.
O amor maduro é a regeneração de cada erro.
Ele é filho da capacidade de crer e continuar, é o sentimento que se manteve mais forte depois de todas as ameaças, guerras ou inundações existenciais com epidemias de ciúme.

O amor maduro é a valorização do melhor do outro e a relação com a parte salva de cada pessoa.
Ele vive do que não morreu mesmo tendo ficado para depois.
Vive do que fermentou criando dimensões novas para sentimentos antigos, jardins abandonados cheios de sementes.
Ele não pede, tem.
Não reivindica, consegue.
Não persegue, recebe.
Não exige, dá. Não pergunta, adivinha.
Existe, para fazer feliz.
Só teme o que cansa, machuca ou desgasta.


quinta-feira, 9 de abril de 2015

A VIDA...


A vida é um longo e penoso processo de luta no qual o ser se aprimora pela dor ou mergulha na loucura da inciência ou do delírio maníaco. A força consiste na capacidade de enfrentar o que dói e aceitar viver, com a certeza de que toda dor é irrevogável embora passageira.

Arthur da Távola

quarta-feira, 8 de abril de 2015

AQUELE AMOR



Ela pertence à espécie de mulheres que possuem um só amor em toda a sua vida. Ou amam de verdade apenas uma vez. Seria espécie de mulheres ou a maioria assim o é, mesmo sem o saber?
Também há homens de eterno amor, embora o machismo e as deformações de sua cultura e comportamento nem sempre os convença de tal. Ou não convença a maioria. Ou será que o fato de serem colocadores de semente por determinismo biológico os leva a não prestar a devida atenção à sua destinação para o amor?

No meio da conversa ela diz, de repente, que só gostou de verdade de um homem e eis que vai buscar lá entre papéis amassados, daqueles que esturricam o couro das carteiras, não um mas três retratos dele, que espalha, qual cartas de baralho, sobre a mesa do restaurante. E fala dele com a mistura de ternura e tristeza que assaltam as mulheres que não lograram viver com o seu amor, casar-se com ele, ter seus filhos, viver em função dele e dela, unidos, pois esta é a verdadeira vontade e destinação da mulher: viver ao lado do verdadeiro amor.

Sim, elas vivem de modo proibido se necessário, casam-se com outro, têm filhos, os amam fundamente, mas a verdade de seu ser é a do amor verdadeiro, até porque mulher vive para amar e por amor, o resto se ajeita. Podem até deixar seu amor dormitar por anos e parecer serenado. Volta, porém a qualquer apelo ou menção do nome dele, encontro fortuito na rua com um conhecido dos tempos do namoro ou da relação.

Como são comoventes e lindas na sua integralidade bíblica as mulheres quando expressam para os demais ou para si mesmas, o amor de suas vidas ou quando consultam, escondido, os retratos guardados, recortes, flores secas, a memória úmida das restantes lembranças em momentos de silêncio e solidão! 

Abençoados sejam, porque são, os homens e as mulheres que na passagem por esta vida receberam um dia de alguém, ou deram, um amor único, original e definitivo. Abençoados sejam e para todo o sempre. Como o amor que existe apesar de todas as ternas e dolorosas circunstâncias que não impedem a sua verdade mas em muitos casos esmagam a sua plena realização.

Artur da Távola

A MULHER QUE SABE AMAR...



A mulher que sabe amar é mestra do homem. Jamais governanta. 
A mulher que sabe amar não irrompe nem interrompe. Chega suave. 
A mulher que sabe amar conhece a sua superioridade e os limites desta. 
A mulher que sabe amar sabe ser mãe e ser um furor na cama. 
A mulher que sabe amar jamais se deixa subjugar. Nem subjuga. 
A mulher que sabe amar sabe que não basta ter razão. Precisa saber ter razão. 
A mulher que sabe amar é o ser mais elevado que há na terra. 
A mulher que sabe amar cala quando sabe não ser compreendida e fala na hora certa. 
A mulher que sabe amar jamais diz: eu não falei que não ia dar certo. 
A mulher que sabe amar compreende os filhos e sem pretender ensina amor ao marido. 
A mulher que sabe amar por ser superior não se preocupa em mandar. 
A mulher que sabe amar não sabe obedecer cegamente: ou compartilha ou se separa. 
A mulher que sabe amar sabe tanto de moda quanto de arte. 
A mulher que sabe amar educa sem reprimir e orienta sem impor. 
A mulher que sabe amar fala baixo, não usa perfumes exagerados e ama a alma. 
A mulher que sabe amar conversa com Deus e partilha com a família, 
A mulher que sabe amar sente sua máxima realização quando amamenta. 
A mulher que sabe amar tem orgasmo, é abençoada pela bondade. 
A mulher que sabe amar não faz alarde de sua superioridade sobre o homem. 
A mulher que sabe amar é a responsável pela sobrevivência da espécie humana. 
A mulher que sabe amar jamais ouvirá de seu marido a frase: 
Eu não tenho opiniões: tenho esposa....

Artur da Távola

Perdoar é a junção de " per " com "doar"





"... Aprendi, outro dia que perdoar
é a junção de " per " com "doar". 

Doar é mais do que dar.
Doar é a entrega total do outro.
O prefixo "per" que tem várias acepções,
indica movimento no sentido "de"
ou em "direção" a ou "através"
ou "para" etimologicamente falando,
portanto, perdoar, quer dizer doar ao
outro a possibilidade de que ele possa amar,
possa doar-se.
Não apenas quem perdoa que se
"doa através do outro".
Perdoar implica abrir possibilidades de
amor para quem foi perdoado,
através da doação oferecida
por quem foi agravado.
Perdoar é a única forma de facilitar
ao outro a própria salvação. 

Doar é mais do que dar: é a entrega total ...

Perdoar é doar o amor,
é permitir que a pessoa objeto do perdão
possa também devolver um amor que,
até então, só negara ...

Artur da Távola

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Ter ou não Ter namorado(a), eis a questão.






Quem não tem namorada(o) é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. Namorada(o) é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado(a) de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabira, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorada(o) mesmo é muito difícil.
Namorado(a) não precisa ser o mais bonito(a), mas ser aquele(a) a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele(a) a gente treme, sua frio, e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele(a) não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.

Quem não tem namorado(a) não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, dois amantes e um esposo(a); mesmo assim pode não ter nenhum namorado(a). Não tem namorado(a) quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, sanduíche da padaria ou drible no trabalho.
Não tem namorado(a) quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria.

Não tem namorado(a) quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de curar.
Não tem namorado(a) quem não sabe dar o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora que passa o filme, da flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque, lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário.
Não tem namorado(a) quem não gosta de dormir, fazer sesta abraçado(a), fazer compra junto. Não tem namorado(a) quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele(a); abobalhados de alegria pela lucidez do amor.

Não tem namorado(a) quem não redescobre a criança e a do amado(a) e vai com ela a parques, fliperamas, beira d'água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.
Não tem namorado(a) quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado(a). Não tem namorado(a) quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir quem curte sem aprofundar. Não tem namorado(a) quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado(a) de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.
Não tem namorado(a) quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.

Não tem namorado(a) que confunde solidão com ficar sozinho(a) e em paz. Não tem namorado(a) quem não fala sozinho(a), não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo(a).
Se você não tem namorado(a) é porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando 200Kg de grilos e de medos. Ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim.

Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio.
Se você não tem namorado(a) é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido.

(Arthur da Távola)